Cuidar do corpo: cansaço, dores e LME no trabalho sexual
Nesta profissão pensa-se na segurança, no dinheiro, nos clientes — raramente no desgaste do corpo. É pena, porque o corpo é precisamente o instrumento de trabalho. Preservá-lo não é um luxo : é a base para durar. Eis como cuidar dele, sem discursos moralistas.
O teu corpo é o teu instrumento de trabalho: merece manutenção
Um(a) atleta de alto rendimento não desvaloriza os seus aquecimentos, o seu sono nem as suas sessões de fisioterapia : faz parte da profissão. O trabalho sexual também é uma atividade física, por vezes intensa e repetida. Cuidar do corpo não tem, pois, nada de capricho ; é profissionalismo, tal como verificar os clientes ou compartimentar os teus dados. Este guia reúne reflexos simples de prevenção e de recuperação. Como sempre neste site, são pistas gerais, não prescrições : o teu corpo, o teu ritmo, e um(a) profissional de saúde para o que for à medida.
As zonas que mais sofrem
Consoante a tua prática, certas partes do corpo aguentam mais do que outras :
- As costas e a zona lombar : posturas mantidas, superfícies demasiado moles, gestos repetidos.
- A nuca e as cervicais : tensões, posições de cabeça baixa (telemóvel, ecrã).
- Os joelhos e os pulsos : apoios prolongados, pressões repetidas.
- Os pés e as pernas : estar muito tempo de pé, saltos altos, má circulação.
- O pavimento pélvico : demasiadas vezes esquecido, voltamos ao assunto mais abaixo.
- A voz e a garganta se trabalhas ao telefone ou em cam : o cansaço vocal é real.
Nada de preocupante em si : são solicitações, não fatalidades. A ideia é reparti-las e compensá-las antes que se transformem em dor crónica.
Prevenir: antes e entre os encontros
A maioria das dores evita-se com pequenos ajustes :
- Aquece brevemente, como antes de um esforço : alguns movimentos para despertar costas, ancas e ombros.
- Varia as posições e os apoios em vez de repetir sempre os mesmos ; alterna o que solicita joelhos, pulsos e nuca.
- Cuida da tua superfície de trabalho : um colchão firme protege as costas muito melhor do que um sofá afundado.
- Doseia os saltos altos : soberbos para a imagem, duros para os pés e a zona lombar ; reserva momentos de pé raso.
- Hidrata-te e concede-te verdadeiras pausas entre os encontros em vez de encadear tudo.
O pavimento pélvico, o grande esquecido
É o ângulo morto da saúde no trabalho desta profissão, e merece melhor. O períneo (esse conjunto de músculos na base da bacia) pode cansar-se, contrair-se em excesso ou relaxar-se. Há sinais que não devem ser ignorados : dores durante as relações, sensação de peso, perdas, desconforto persistente. A reabilitação do períneo — suave, orientada por um(a) fisioterapeuta ou parteira — não é reservada ao pós-parto ; diz respeito a toda a gente. Quanto a ginecologia e IST, o rastreio regular faz parte da rotina : reúnem-se os centros gratuitos e anónimos em onde fazer o rastreio.
Recuperar: o descanso não é tempo perdido
Temos tendência a sentir-nos culpados por parar, sobretudo quando cada encontro conta financeiramente. Mas a recuperação faz parte do trabalho : um corpo descansado trabalha melhor, durante mais tempo, e avaria menos vezes. Aposta no sono, no calor (banho quente, saco de água quente sobre as tensões), em alongamentos suaves ao fim do dia, e em verdadeiros dias de folga. Pensar no teu descanso é também uma questão de dinheiro : reservar tempo sem encontros, tal como se põe dinheiro de lado, evita que trabalhes no limite das forças (falamos disso em gerir o teu dinheiro).
A carga mental também conta
O corpo não aguenta apenas o físico : carrega o stress, a hipervigilância, o cansaço emocional de uma profissão em que é preciso avaliar, sorrir e proteger-se sem parar. Os sinais de esgotamento — sono desregulado, irritabilidade, perda de ânimo, sensação de « demasiado » — merecem tanta atenção como uma dor nas costas. Permitires-te dizer que não, espaçar, respirar, não é fraquejar : é durar. E se o ânimo vacila, falar ajuda : encontrarás linhas de escuta e apoios em ajuda & recursos.
Um último reflexo, simples mas poderoso : aprender a ler os sinais do teu corpo antes que gritem. Uma tensão que volta sempre ao mesmo sítio, um cansaço que já não passa com uma noite de sono, uma apreensão física antes dos encontros : são mensagens, não caprichos. Ignorá-los para « aguentar » sai sempre mais caro ao fim de contas. Abrandar a tempo, espaçar, recusar um encontro a mais, não é privar-te de um rendimento : é proteger o instrumento que te permite ter um.
A pele, a higiene, as mucosas
A pele e as mucosas estão na primeira linha : atritos, látex, produtos e duches repetidos podem irritar ou ressecar. Alguns reflexos ajudam : uma hidratação regular, produtos suaves e adequados, e a consciência de que o excesso de higiene íntima desequilibra a flora e favorece precisamente as irritações — uma limpeza simples com água ou com um produto suave basta na maioria das vezes. Pensa também nas alergias ao látex : existem preservativos sem látex. Uma lesão, uma vermelhidão que se instala ou uma comichão persistente merecem uma opinião em vez de um tratamento às cegas. Manter a pele em bom estado é também limitar os microcortes que aumentam os riscos de infeção.
Comer, mexer, dormir: as bases que mudam tudo
Esquecemo-nos depressa, mas o essencial da recuperação joga-se em três fundamentos. O sono primeiro : é ele que repara os tecidos e recarrega o mental ; horários desregulados (noites, fins de noite) obrigam a cuidar dele ainda mais. A alimentação depois : comer a horas regulares, em quantidade suficiente, sem saltar refeições entre dois encontros, estabiliza a energia e o humor. A atividade física suave por fim : a natação, o ioga, o Pilates ou um pouco de reforço das costas e da faixa abdominal protegem precisamente as zonas mais solicitadas. Nada de extremo : a regularidade conta mais do que a intensidade. Estas bases, sem glamour, são o que permite aguentar ao longo do tempo sem se desgastar.
Quando consultar, e quem
Uma dor que se instala, que acorda durante a noite ou que te obriga a alterar os teus gestos não é « normal » : merece uma opinião. Consoante o caso :
- Fisioterapeuta ou osteopata para as costas, as articulações, as tensões ;
- médico(a) de família como primeiro interlocutor e para te orientar ;
- ginecologista, parteira ou fisioterapeuta do períneo para o pavimento pélvico ;
- centro de saúde ou consulta de rastreio para o rastreio de IST/VIH, gratuito e anónimo (através do SNS ou de associações como o GAT).
Não deixes arrastar por receio do julgamento : tens direito aos cuidados de saúde como toda a gente.
Ter acompanhamento sem seres julgado(a)
Encontrar profissionais de saúde acolhedores muda tudo. Não és obrigado(a) a contar tudo : descreve os teus sintomas e os teus gestos do dia a dia (estar de pé, posturas, transporte de cargas), muitas vezes chega para orientar o cuidado. As equipas de saúde de associações como os Médicos do Mundo Portugal estão habituadas a acolher sem julgar e podem encaminhar-te para profissionais de confiança. O teu corpo transporta-te todos os dias : bem merece que se cuide dele.
- Aqueço um pouco e vario as posições.
- Cuido da minha superfície de trabalho e doseio os saltos altos.
- Hidrato-me e reservo pausas entre os encontros.
- Levo a sério o pavimento pélvico (e consulto se for preciso).
- Concedo-me verdadeiros dias de folga — o descanso faz parte da profissão.
- Uma dor que dura = uma opinião médica, sem me sentir culpado(a).
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