Pais: o vosso filho ou filha é trabalhador·a do sexo
Acabaram de o saber e tudo se atropela: a imagem que tinham do vosso filho ou filha, o medo, o olhar dos outros, por vezes a culpa. Respirem. Aquilo que sentem é humano — e aquilo que fizerem nas próximas semanas vai contar muito. Este guia está aqui para vos ajudar a continuar a ser aquilo de que o vosso filho ou filha mais precisa: um pai ou uma mãe presente.
O choque, e o que nunca se deve fazer a quente
A primeira reação raramente é a melhor, porque nasce do medo. Antes de dizer ou de fazer o irreparável, concedam-se um tempo. Evitem, a quente: os gritos, os ultimatos (« sou eu ou essa profissão »), as frases definitivas, a ameaça de cortar os laços ou o dinheiro. Estas reações não fazem um filho recuar; empurram-no a calar-se, a mentir, a afastar-se — ou seja, exatamente o contrário do que querem. Têm o direito de ficar transtornados; têm também o poder de não transformar esse transtorno numa rutura.
Não é culpa vossa, nem um fracasso
Muitos pais perguntam-se logo: « o que é que eu falhei? ». A resposta é: nada. O trabalho sexual não é o resultado de uma má educação, nem a prova de um trauma escondido. Pessoas de todos os meios, com ou sem estudos, exercem-no — por escolha, por oportunidade, por vezes por necessidade económica, como se escolhem muitas outras profissões. Confundir esta escolha com uma degradação é assumir como próprio um velho preconceito que magoa. O vosso papel enquanto pais nunca foi controlar a sexualidade de um·a adulto·a: é, ainda hoje, amar e proteger o laço.
Porque é que o vosso filho ou filha vos contou
Avaliem o que acabou de acontecer: o vosso filho ou filha poderia ter-vos escondido isto a vida toda, como tantos outros fazem por medo da rejeição. Se vos contou, é um ato de confiança imenso — talvez um teste, talvez um alívio, seguramente uma necessidade de ser visto·a tal como é, sem máscara. Castigar essa confiança com a raiva ou o desprezo é garantir que nunca mais vos vão confiar nada. Acolhê-la, mesmo desajeitadamente, é manter a porta aberta para tudo o resto: os bons dias como os momentos difíceis.
Os vossos medos, um a um
As vossas preocupações são legítimas; olhemo-las de frente em vez de as deixar invadir tudo:
- A segurança. É muitas vezes o medo n.º 1. Saibam que o vosso filho ou filha não está desprotegido·a: existem reflexos concretos de segurança (pré-seleção, « código amigo », limites definidos), detalhados na nossa checklist. Podem até, se vos for proposto, fazer parte desse dispositivo.
- O olhar dos outros. A vergonha que receiam é o estigma — não o vosso filho ou filha. É a sociedade que tem de mudar de olhar, e podem escolher não reproduzir esse juízo em casa.
- O futuro, o dinheiro, a saúde. São temas de conversa possíveis, a abordar com respeito e no momento certo, como com qualquer adulto·a — não armas para o·a fazer sentir-se culpado·a.
Manter o laço, custe o que custar
Se só houvesse uma coisa a reter, seria esta: o laço que preservam é a melhor proteção do vosso filho ou filha. Um·a adulto·a que sabe que é amado·a aconteça o que acontecer é alguém que volta para vós, que fala quando as coisas correm mal, que pede ajuda a tempo. Pelo contrário, a rutura isola — e é o isolamento, muito mais do que a profissão, que põe as pessoas em perigo. Não são obrigados a compreender tudo nem a concordar; estão apenas convidados a não bater com a porta.
Distinguir uma escolha que incomoda de uma verdadeira coação
A vossa preocupação pode fazer-vos ver coação por todo o lado; nem sempre é justificado. Há uma diferença nítida entre uma escolha que vos deixa desconfortáveis e uma situação de domínio, de violência ou de exploração. Se tiverem uma dúvida séria — medo visível, dinheiro confiscado, alguém que decide no lugar dele·a —, não acusem nem sermoneiem: façam perguntas abertas, expressem o vosso apoio incondicional, e tenham presentes os recursos de emergência (o 112 e a APAV — 116 006 para as violências, e as estruturas listadas em ajuda & recursos). A coação é um crime; uma escolha livre não o é.
Informarem-se em vez de entrar em pânico
O medo nasce muitas vezes da ignorância. Em vez de andar às voltas, informem-se: compreender a profissão, as suas realidades e os seus direitos faz cair muitas angústias. As nossas ideias feitas, o nosso glossário e o relato porque criei a Escortia são bons pontos de partida para substituir os clichés por factos concretos. E se quiserem o ângulo mais amplo do círculo próximo, leiam também alguém próximo é TS: como apoiá-lo·a.
Cuidem de vós, também
As vossas emoções são reais e merecem um espaço — mas esse espaço não é o vosso filho ou filha, que já carrega a sua parte e o peso do olhar dos outros. Evitem descarregar a vossa angústia sobre ele·a; encontrem noutro lado com que a digerir: um·a amigo·a de confiança, um grupo de apoio, um·a psicólogo·a. Cuidarem de vós não é afastarem-se do vosso filho ou filha: é voltar para ele·a mais serenos, logo, mais disponíveis.
Não são obrigados a concordar
Apoiar um filho não quer dizer aprovar cada uma das suas escolhas, e ninguém vos pede para fingir. Têm o direito de ter uma opinião, e até de a dizer — uma vez, com calma, na primeira pessoa em vez de em censura (« tenho medo por ti » em vez de « estás a estragar a tua vida »). O que importa é não transformar esse desacordo numa guerra permanente: repetir todas as semanas a vossa desaprovação acaba por estragar tudo, sem mudar nada. Digam-no uma vez, com sinceridade, e depois deem espaço: o vosso filho ou filha ouviu, e vai preferir manter o laço com um pai ou uma mãe que respeita, mesmo sem aplaudir.
E o resto da família?
Uma questão surge muitas vezes: quem mais sabe, e devemos falar disso? A regra é simples: este segredo pertence ao vosso filho ou filha, não a vós. Não o·a « exponham » junto dos irmãos, dos avós ou dos amigos sem o seu acordo: uma indiscrição, mesmo bem-intencionada, pode custar-lhe muito caro e quebrar a confiança que ele·a acabou de vos conceder. Perguntem-lhe antes o que deseja que digam, e a quem. Carregar este silêncio pode ser pesado também para vós; mais uma razão para encontrar um espaço vosso — alguém próximo de confiança fora da família, um grupo de apoio, um·a psicólogo·a — onde depositar aquilo que sentem.
O tempo joga a vosso favor
A maioria das relações encaixa este momento e acaba por sair reforçada. As primeiras semanas são as mais duras; depois, pouco a pouco, a vida retoma, o diálogo reabre-se, e percebe-se que nada de essencial mudou: continua a ser o vosso filho ou filha. O pai ou a mãe que não bateu com a porta é aquele·a a quem se volta — para uma boa notícia, um conselho, ou uma noite em que tudo corre mal. É isso, no fundo, estar presente.
- Acolher a confiança que acabaram de vos fazer, mesmo desajeitadamente.
- Manter o laço acima de tudo: é a verdadeira proteção.
- Informar-se para substituir o medo por compreensão.
- Evitar ultimatos, chantagem e rutura.
- Distinguir uma escolha que incomoda de uma coação real.
- Cuidar de si noutro lado que não sobre os ombros do filho ou filha.
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