Entender o trabalho sexual

O glossário do trabalho sexual: todo o vocabulário de A a Z

Por a equipa Escortia Atualizado a 3 de junho de 2026 12 min de leitura

Do jargão do ofício ao vocabulário militante e jurídico, o trabalho sexual tem as suas palavras — e compreendê-las bem é já falar melhor sobre elas. Aqui fica um glossário claro, organizado por ordem alfabética. Procuras o significado de uma abreviatura de anúncio (A+, GFE, OWO…) ? Vai diretamente ao léxico dos serviços. Para ir mais longe, vê também as nossas ideias feitas e a nossa página sobre os direitos.

A

Abolicionismo

Corrente que pretende fazer desaparecer a prostituição, considerada uma violência em si, sem penalizar a pessoa, mas punindo o cliente e o lenocínio. Inspira o « modelo nórdico ». A não confundir com a descriminalização, que visa o inverso : dar direitos em vez de fazer desaparecer. Vê o nosso comparativo das leis na Europa.

Sinal (adiantamento)

Pequeno adiantamento pago pelo cliente para reservar um encontro. É uma prática de segurança comum e legítima, que afasta os encontros pouco sérios ; não é, em si, sinal de uma burla. Vê perfil verdadeiro ou falso.

Anúncio

O perfil publicado por uma TS para se tornar visível : fotos, descrição, serviços, cidade, contacto. É a principal ferramenta de trabalho em linha. Na Escortia, é gratuito e permanece sob o controlo da pessoa.

Avaliação (review)

Comentário deixado por um cliente sobre um encontro. As avaliações podem ajudar à reputação, mas também expor a pessoa ou pressioná-la ; o seu uso é objeto de debate no meio.

B

BDSM

Conjunto de práticas consentidas em torno do bondage, da dominação/submissão e do sadomasoquismo. Muitas vezes proposto na ótica da « dominação », por vezes sem qualquer ato sexual. A palavra-chave aqui é o consentimento, definido antecipadamente.

C

Camgirl / camboy

Pessoa que propõe espetáculos eróticos em direto por webcam, mediante pagamento ou gorjetas, sem contacto físico. Uma forma de trabalho sexual em plena expansão.

Cliente

Pessoa que remunera um serviço sexual ou de acompanhamento. Em Portugal, comprar um ato sexual entre adultos não é, em si, crime ; o que é punido é o lenocínio (art. 169.º do Código Penal). Vê os teus direitos.

Código de segurança / safe call

Sistema de segurança em que uma pessoa de confiança conhece o local, a hora e a hora de fim de um encontro, com uma palavra « está tudo bem » e um sinal de alerta. Vê a checklist de segurança.

Consentimento

Acordo livre, esclarecido e revogável a qualquer momento. O facto de pagar não o compra : um ato não consentido continua a ser uma agressão, ou mesmo uma violação. Vê respeito & consentimento.

D

Descriminalização

Retirada do trabalho sexual do direito penal, para o fazer depender do direito comum e do direito do trabalho. Modelo da Nova Zelândia e, desde 2024, da Bélgica. Apoiado por numerosas organizações de direitos humanos (Amnistia, OMS, ONUSIDA).

Domiciliação (morada alternativa)

Possibilidade de declarar uma morada administrativa que não é a residência (junto de um·a advogado·a ou de uma associação). Precioso para apresentar queixa ou tratar de diligências sem revelar onde se vive. Vê o que fazer após uma agressão.

Dominação

Serviço em que a pessoa (dominadora/dominador) assume o controlo num quadro BDSM consentido, muitas vezes sem ato sexual propriamente dito.

Duo

Serviço assegurado por dois·duas trabalhadores·as para um mesmo encontro.

E

Escort / acompanhante

Termo corrente para uma pessoa que propõe acompanhamento e/ou serviços sexuais, geralmente por marcação e através de anúncios. « Escorting » designa o facto de exercer desta forma.

F

Filtragem / pré-seleção

Conjunto de verificações feitas antes de aceitar um encontro (troca de mensagens, chamada, sinal, cruzamento de um número) para afastar clientes de risco. Uma etapa essencial da segurança. Vê a checklist de segurança.

G

GFE (girlfriend experience)

Serviço que simula uma relação de casal : ternura, cumplicidade, beijos, conversa, por oposição a um ato mais mecânico. Uma das procuras mais frequentes.

H

Hospedeira / acompanhamento

Termos usados para um serviço centrado na companhia (serão, jantar, evento, viagem), com ou sem sequência íntima. Abrangem realidades variadas consoante os anúncios : o importante é que o enquadramento seja claro entre as duas partes.

I

Incall / Outcall

Em incall, o cliente desloca-se até à pessoa ; em outcall, é a pessoa que se desloca (casa do cliente, hotel). As precauções de segurança diferem nos dois casos.

IST

Infeções sexualmente transmissíveis. O rastreio regular faz parte da rotina profissional ; é gratuito e anónimo nos centros de saúde e nos CAD/Centros de rastreio. Vê onde fazer o rastreio.

L

Limites

As práticas que uma pessoa aceita ou recusa, definidas antecipadamente. Não se negoceiam sob pressão : ultrapassá-los sem acordo é uma violência. Saber distinguir os limites firmes daquilo que é eventualmente negociável faz parte do ofício.

M

Trabalho de proximidade (outreach)

Ação de « ir ter com » de associações que vão ao encontro das TS no terreno : saúde, material de prevenção, escuta, informação sobre os direitos.

Modelo nórdico

Abordagem que não penaliza a pessoa, mas pune o cliente e o lenocínio, com a ideia de fazer recuar a prostituição. Inventado pela Suécia em 1999. Vê o comparativo europeu.

N

Naturista (massagem)

Massagem praticada despido·a, por vezes corpo a corpo, que não implica necessariamente ato sexual.

No-show (falta)

Um cliente que reserva e depois não aparece, sem avisar. Os « no-shows » fazem perder tempo e dinheiro : é uma das razões pelas quais muitas TS pedem um adiantamento (sinal).

P

Programa

Termo familiar para um serviço tarifado, geralmente de curta duração.

PrEP

Tratamento preventivo que protege do VIH, tomado antes de uma exposição ao risco. A distinguir da PPE (após exposição). Vê rastreio & prevenção.

Lenocínio

Facto de ajudar, organizar ou tirar proveito da prostituição de outrem. Em Portugal, o lenocínio é crime (art. 169.º do Código Penal) e a definição é ampla, podendo abranger um senhorio ou colegas que se entreajudam. Vê os teus direitos.

Putofobia (whorephobia)

Estigmatização e discriminação dirigidas às pessoas real ou supostamente prostituídas. Traduz-se em violências, exclusões e leis desfavoráveis. Vê ideias feitas.

R

Aliciamento na via pública

Facto de abordar alguém com vista à prostituição. Em Portugal, a prostituição por conta própria não é crime, pelo que a prática por si só não recai sobre as TS ; o que é punido é o lenocínio.

Reapropriação

O facto de as pessoas visadas retomarem por sua conta uma palavra-insulto (como « puta » ou « whore ») para dela fazerem um termo de orgulho e de luta. Na boca de uma TS, não é um insulto ; vindo de outra pessoa, continua a sê-lo.

Redução de riscos

Abordagem de saúde pública que visa limitar os danos (sanitários, sociais) em vez de proibir, e sem julgar. Orienta a ação de numerosas associações.

Regulamentarismo

Modelo em que o Estado enquadra a atividade : licenças, registo, obrigações sanitárias. É o caso da Alemanha ou dos Países Baixos. Vê o comparativo.

S

Sex work / trabalho sexual

Termos reivindicados pelo movimento das pessoas visadas para designar a atividade como um trabalho, em vez de o fazerem apenas pela ótica moral. « TS » é a sigla.

Estigma

Marca social de vergonha ligada a um grupo. O estigma das TS (a putofobia) tem efeitos muito concretos : violências que não se ousa denunciar, contas bancárias encerradas, cuidados de saúde maltratantes. Combatê-lo é uma questão de segurança, não apenas de imagem.

Associações de defesa

Em Portugal, várias associações defendem os direitos das TS e prestam informação jurídica e apoio : a APDES, o GAT e os Médicos do Mundo Portugal são estruturas a conhecer (vê ajuda & recursos).

T

Tarifa

Preço anunciado de um serviço. Não é um ponto de partida de negociação : regateá-lo é malvisto e desrespeitoso para com o trabalho prestado.

PPE

Profilaxia pós-exposição ao VIH, a iniciar nas 48 horas após uma situação de risco. Vê o que fazer após uma agressão.

Tráfico de seres humanos

Exploração de uma pessoa pela coação, pelo engano ou pela violência. É um crime, a nunca confundir com o trabalho sexual livremente escolhido.

V

VIH

Vírus da imunodeficiência humana. O rastreio é gratuito e anónimo ; a PrEP previne a infeção, a PPE atua após uma exposição, e um tratamento eficaz torna o vírus intransmissível. Vê rastreio & prevenção.

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O léxico dos serviços (abreviaturas dos anúncios)

Os anúncios estão repletos de abreviaturas, muitas vezes vindas do inglês, para descrever os serviços. Aqui ficam as principais, explicadas de forma simples. Dois lembretes antes de ler : exibir uma prática nunca retira o direito de definir os teus limites caso a caso, e tudo se discute claramente antecipadamente. O consentimento prevalece sobre qualquer código.

AbreviaturaO que significa
A+ / A-Ato anal (sodomia) proposto (« A+ ») ou não proposto (« A- »).
GFE« Girlfriend experience » : encontro terno, à maneira de casal.
PSE« Porn star experience » : serviço mais intenso e demonstrativo.
FK / DFK« French kiss » : beijo de língua ; « DFK » = beijo profundo.
BJFelação (« blow job »), com preservativo salvo indicação em contrário.
OWO« Oral without » : felação sem preservativo — risco acrescido de IST (vê a caixa).
CIMEjaculação na boca (« come in mouth »).
COF / COBEjaculação na cara (« on face ») ou no corpo (« on body »).
DTGarganta profunda (« deep throat »).
69Estimulação oral mútua e simultânea.
CuniCunilíngua : estimulação oral do sexo feminino.
AR / anulínguaAnulíngua : estimulação oral do ânus, « dada » ou « recebida » consoante o anúncio (« rimming »).
EspanholaEstimulação do pénis entre os seios.
Massagem prostáticaEstimulação da próstata, manual ou com acessório.
Dominação / submissãoJogos de poder consentidos (BDSM), « soft » ou « hard », muitas vezes sem ato sexual.
FetichismoPráticas em torno de um objeto ou de uma parte do corpo (pés, cabedal, látex…).
Uro / urofiliaJogos que envolvem a urina (« golden shower »).
Duo / TrioServiço a dois ou três trabalhadores·as para um mesmo encontro.
Casal / troca de casaisServiços destinados a um casal, ou com um casal.
Striptease / lap danceStrip ; dança em contacto.
HJ / masturbaçãoMasturbação manual (« handjob »).
DPDupla penetração (duas penetrações em simultâneo) ; pressupõe em geral um duo ou um trio.
GB / gang bangAto com vários parceiros em simultâneo.
MSOG« Multiple shots on goal » : vários atos ao longo da duração do encontro.
Creampie / CIPEjaculação no interior, sem preservativo — risco elevado de IST/VIH (vê a caixa).
BukkakeEjaculações múltiplas sobre o corpo ou a cara.
SquirtEjaculação feminina.
FacesittingSentar-se sobre a cara do·a parceiro·a (muitas vezes em dominação).
FistingPenetração vaginal ou anal com a mão ; prática de risco que exige suavidade, luva e lubrificante.
PeggingPenetração do homem pelo·a parceiro·a com recurso a um strap-on.
CBT« Cock and ball torture » : práticas BDSM consentidas sobre os órgãos genitais masculinos.
Palmadas / spankingPalmadas nas nádegas, num quadro BDSM ligeiro e consentido.
Massagem tântrica / nuruMassagens eróticas : tantra (lentidão, energia) ou nuru (corpo a corpo com gel).
Corpo a corpoMassagem pele contra pele (« body-body »), sem necessariamente ato sexual.
CD / TS« Crossdresser » (travesti) / escort trans — indicam quem propõe ou o que se procura.
Sem / BB« Bareback » : sem preservativo. Risco máximo de IST/VIH — vê a caixa.
⚠ Redução de riscos

Certas abreviaturas (OWO, CIM, creampie/CIP, « sem », BB…) designam práticas sem preservativo, que expõem mais às IST e ao VIH. Nenhuma é « obrigatória » : escolhes o que propões e defines os teus limites. Preservativos, gel, PrEP e rastreio regular continuam a ser os melhores aliados — está tudo detalhado em rastreio & prevenção e na checklist de segurança.

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↪ Falta alguma palavra ?

Este glossário vai-se enriquecendo com o tempo. O essencial a reter : as palavras moldam o olhar. Preferir « trabalho sexual » a termos carregados não é moda — é uma questão de respeito e de rigor. Para ir mais longe, lê as ideias feitas.

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